Lá fora o sol quente já brilha. È meio da manhã quando ele abre os olhos, ainda cansado e dorido de mais uma noite mal dormida. Com relativa indiferença ao belo dia que vê lá fora, veste-se e dirige-se à porta para o primeiro cigarro do dia, que fuma sem satisfação. O sabor amargo e nauseante que lhe invade a boca fá-lo mais uma vez perguntar-se porque nunca conseguiu largar aquele vício, mas depressa abandona essa reflexão e dá a última passa antes de atirar fora a beata. Ainda meio atordoado, fecha a porta e dá um breve sorriso. Hoje não terá que trabalhar, nem ter que lidar com todo o stress que o trabalho acarreta e que o deixa completamente doido todos os dias, roubando-lhe quase a totalidade do seu precioso tempo. Hoje ele descansa, por isso hoje é o dono do seu tempo.
Quase por impulso liga a televisão e senta-se no sofá, onde se espoja com a maior das descontracções. Depois de cinco minutos de zapping compulsivo, conclui que não será o televisor a escolha mais acertada para hoje. Lá terá de ir mais um cigarro, então…
Aproveita então para comprar o jornal, para se por a par das notícias do dia. Mais uma má opção. Em todas as páginas encontra o mesmo de todos os dias: guerra, crime, corrupção, crise económica, desemprego, temperadas com as inevitáveis páginas de desporto e notícias inconsequentes sobre a vida das celebridades. Desiludido, amarrota o jornal e lança-o no caixote do lixo, antes de dar um último gole no café e voltar para casa. Pelo caminho lembra-se de ir ligar o computador, para ver se haveria algo de novo, ou se alguém lhe havia mandado notícias. Com ânimo redobrado, acelera o passo até casa e dirige-se ao quarto, onde o computador permanecia inactivo há já quase uma semana. O cansaço e a falta de paciência assim o haviam obrigado. O som de arranque do computador quase que se tornara relaxante naquele momento. Era agora que o dia iria começar a mudar para melhor.
Bastaram alguns cliques em meia dúzia de sites que visita frequentemente e uma rápida vista de olhos pelo e-mail, para o seu ânimo cair por terra novamente. Uma semana passara e nada de novo. Continuava tudo na mesma. Ninguém o havia contactado, nem sequer para um simples “Olá, tudo bem?. Adeus.”. Mais uma vez, instala-se o desapontamento, mas desta vez seguido por um sonoro berro de frustração em frente ao monitor. Talvez um pouco de música ajude…
Quase por instinto, faz uma playlist, que vai ouvindo enquanto tenta buscar no Google algo que lhe desperte o interesse , busca essa que se torna infrutífera, pois a sua mente está em branco e completamente desprovida de ideias interessantes. Um mundo inteiro de conhecimento a um clique de distância, e ele sem saber sequer por onde começar. Típico. Talvez mais um cigarro o inspire.
Chega a hora de almoço. Ele olha para a refeição à sua frente e suspira levemente. Não sente vontade de comer, mas depressa a devora, não por fome, mas por uma simples questão de hábito. O ritmo frenético que lhe é imposto todos os dias raramente lhe dá tempo para apreciar a comida, algo que era impensável há alguns anos atrás, pois a comida era um dos seus maiores prazeres. Acabada a refeição , acende mais um cigarro enquanto se dirige mais uma vez ao café. Pelo caminho aproveita para tentar mais uma vez a sorte no Euromilhões, na esperança improvável de ser esta semana que arrecadará o chorudo prémio, que daria o gigantesco impulso à sua vida. Já com o boletim na mão, sonha com o que poderia fazer com tanto dinheiro, e sorri com ironia. “Pois, isso está mesmo para acontecer.” , pensa ele enquanto degusta o café, olhando de relance para o televisor, onde o noticiário repete as mesmas notícias que lera anteriormente no jornal. É de novo hora de ir para casa.
A tarde passa a um ritmo lento , quase exasperante. De vez em quando ele olha para o telemóvel, quase implorando para que tocasse, algo que não acontecia há semanas, com a excepção da ocasional chamada por razões profissionais, as quais ele odiava. Cansado do irritante silêncio vindo do aparelho, por momentos sente o impulso de ligar para alguém, mas detém-se logo de seguida. A sua disponibilidade não era sinónimo da disponibilidade dos outros. Lá por ter tempo livre e nada que fazer, não implicava que os outros não tivessem os seus próprios afazeres e compromissos. Tinha saudades dos tempos em que quase não conseguia dar vazão às solicitações dos seus amigos, em que o tempo quase não chegava para todos, mas que se conseguia espremer para não desiludir ninguém. Eram sem dúvida outros tempos, outras responsabilidades . Mas tudo isso mudou, talvez para sempre.
A onda de nostalgia que o atingiu tinha deixado marcas. Deu por si de novo em frente ao computador, mas desta vez limitou-se a fazer mais uma playlist com músicas desses tempos e simplesmente se recostou a ouvi-las. Não sabe porquê, mas algo o levou a fazê-lo recordar tudo o que passara nesses tempos, todos os bons e maus momentos, todos os sorrisos de alegria, mas também os esgares de raiva e frustração após cada obstáculo que não conseguira ultrapassar. Foram tempos frenéticos e conturbados, mas que o tinham feito crescer por dentro, transformando a tímida criança que fora em tempos no adulto que era agora. Tinham sido mesmo bons tempos…que não iriam voltar. E desde então nada na sua vida havia mudado, tudo teimava em parecer igual, como se tivesse congelado no tempo.
Foi esta ideia que o consumiu durante o resto do dia, drenando-lhe qualquer resto de boa-disposição que pudesse ter sobrado. O facto de ter tido o dia só para si já não parecia ter importância. Não tinha feito nada significativo dele, de qualquer maneira. Melancólico, devorou o jantar de uma assentada e agarrou-se a um livro, na esperança de que este lhe conseguisse abstrair deste pensamento, mas em vão. Pôs o livro de parte e acendeu mais um cigarro, enquanto fazia mais um zapping pelo televisor. Nada.
Decidiu então ir dormir. O sono tardava em chegar. O pensamento não o abandonara. Três horas haviam passado e ele ainda não havia conseguido pregar olho. Cansado de se revirar na cama, levantou-se e saiu para mais um cigarro. “Maldito vício”, pensou ele, “se ao menos não fosse tão relaxante, parava já.” . Depois de uma longa e demorada inalação no cigarro, quase como se respirasse fundo para tentar recuperar o fôlego, descartou a beata e voltou para a cama. O cigarro tinha dado resultado, deixando-o mais descontraído. Ainda antes de fechar os olhos, olhou para o telemóvel deixado à cabeceira, mas depressa se voltou para o lado oposto e pensou antes de adormecer: “Amanhã vai ser igual.”
domingo, 20 de junho de 2010
domingo, 21 de março de 2010
O ciclo renova-se...
É verdadeiramente curioso constatar que a nossa vida se baseia numa infindável cadeia de ciclos. Escrevi este poema há anos atrás,como favor a um amigo, que queria impressionar uma rapariga com as suas "aptidões literárias", mas que não tinha absolutamente jeito para a poesia. A muito custo, lá lhe fiz o favor, mas tive que superar a maior dificuldade de todas: como escrever um poema sobre alguém que nem conhecia,e que de forma alguma poderia sequer nutrir nenhum tipo de sentimento?
A resposta para este dilema surgiu quando me veio à mente a imagem de alguém por quem nutro um carinho bastante especial, mas que, por ironia do Destino sou forçado a manter esse mesmo carinho encarcerado dentro de mim, o que me mantém preso num perverso ciclo vicioso de alegria e desilusão. Depois disso as palavras fluiram livremente.
Passados tantos anos, essa imagem tão inspiradora voltou a povoar noite e dia o meu pensamento e levou-me a revisitar este poema, que decidi partilhar. Novamente o ciclo renova-se...
Despertares Ocultos
Sob a terna luz das estrelas eu desperto,
De um sonho que não consigo descrever
Por meras e banais palavras, tão ocas e vãs,
Que tão frequentemente uso para descrever a realidade.
Realidade, tudo aquilo que me rodeia e me sufoca,
Lugar onde toda a luz do meu ser se apaga,
Lugar onde te encontras tão perto, no entanto tão longe,
Ó guardiã da luz que ilumina o mais sombrio dos meus dias,
E aquece a mais fria das minhas noites.
Tal como a Lua, inóspita e sem brilho, me sinto
Quando não sinto a tua presença.
Pois como ela, que necessita do Sol para resplandecer
No céu nocturno, que por tantas vezes contemplo
Eu preciso de ti para não cair no sombrio abraço do esquecimento.
Para mim tu és o Sol que faz renascer a Lua que há em mim,
Graças a ti todo o meu mundo resplandece e brilha,
Fazendo com que toda a Criação pareça sorrir
Como que banhada por um oceano de alegria,
Que lentamente erode as praias da tristeza e pesar.
Por tudo isto te agradeço, nesta amálgama de palavras e pensamentos
Saídos do mais íntimo do meu ser, do meu coração.
Em ti eu me descobri e secretamente despertei
Para um sonho do qual jamais quero acordar.
A resposta para este dilema surgiu quando me veio à mente a imagem de alguém por quem nutro um carinho bastante especial, mas que, por ironia do Destino sou forçado a manter esse mesmo carinho encarcerado dentro de mim, o que me mantém preso num perverso ciclo vicioso de alegria e desilusão. Depois disso as palavras fluiram livremente.
Passados tantos anos, essa imagem tão inspiradora voltou a povoar noite e dia o meu pensamento e levou-me a revisitar este poema, que decidi partilhar. Novamente o ciclo renova-se...
Despertares Ocultos
Sob a terna luz das estrelas eu desperto,
De um sonho que não consigo descrever
Por meras e banais palavras, tão ocas e vãs,
Que tão frequentemente uso para descrever a realidade.
Realidade, tudo aquilo que me rodeia e me sufoca,
Lugar onde toda a luz do meu ser se apaga,
Lugar onde te encontras tão perto, no entanto tão longe,
Ó guardiã da luz que ilumina o mais sombrio dos meus dias,
E aquece a mais fria das minhas noites.
Tal como a Lua, inóspita e sem brilho, me sinto
Quando não sinto a tua presença.
Pois como ela, que necessita do Sol para resplandecer
No céu nocturno, que por tantas vezes contemplo
Eu preciso de ti para não cair no sombrio abraço do esquecimento.
Para mim tu és o Sol que faz renascer a Lua que há em mim,
Graças a ti todo o meu mundo resplandece e brilha,
Fazendo com que toda a Criação pareça sorrir
Como que banhada por um oceano de alegria,
Que lentamente erode as praias da tristeza e pesar.
Por tudo isto te agradeço, nesta amálgama de palavras e pensamentos
Saídos do mais íntimo do meu ser, do meu coração.
Em ti eu me descobri e secretamente despertei
Para um sonho do qual jamais quero acordar.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Para quê???
“Good guys always finish last.” . Traduzindo livremente, significa que os bons acabam sempre a perder. Nas últimas semanas este é, sem dúvida alguma, o mote que dita o ritmo da minha vida. Por muito que faça para ajudar alguém a sair de uma situação complicada, ou a resolver qualquer tipo de problema, aparece sempre algo pior que não só destroi tudo o que fiz anteriormente, como ainda consegue agravar ainda mais a situação. Parece frustrante? Acreditem , é mesmo.
Este estado de permanente infortúnio tem posto em sérias dúvidas o meu tão vincado sistema de valores, que practicamente me obriga a pôr o bem-estar dos outros à frente do meu, negligenciando de practicamente tudo para que aqueles cuja felicidade devo protejer se sintam seguros e felizes. Nã o é justo que mesmo depois de tanto sacrifício, tanto sofrimento e tanta provação ainda não ter merecido, no mínimo, um momento de paz. Será que terei feito algo de tão mau no passado, para que tudo isto me esteja a acontecer agora? Não creio que seja esse o caso, pois em 28 anos de vida nunca desejei mal algum seja a quem for, nem tampouco o pratiquei. Sempre fui educado para fazer sempre o que era correcto, nem que isso significasse perder algo. Nunca roubei nem enganei ninguém ,por isso o pouco que tenho de meu foi comprado com o suado produto do meu trabalho, mas mesmo assim há quem ainda cobice e questione onde fui obter as minhas posses. Apico-me a fundo no meu trabalho, mesmo não gostando dele, sacrifico a minha já fraca vida social e familiar para que possa cumprir com o meu dever, mas mesmo assim não obtenho nada que recompense todo esse esforço, tendo ainda que ouvir comentários infelizes de quem não se esforça minimamente para cumprir com o seu próprio dever. Nem no campo sentimental me livro deste maldito ciclo, pois embora nunca me tenha envolvido com ninguém com más intenções e ter dado tudo o que podia dar de mim, acabei sempre por perder tudo e magoar-me dos modos mais brutais.
Tendo tudo isto em conta, como poderei eu ter algo mais para dar? Como poderei eu ser capaz de continuar a tentar a ajudar tudo e todos, quando o que recebo em troca é sofrimento? Sinceramente não consigo responder a estas questões. Acho que talvez devesse adoptar a postura da maioria das pessoas, que defendem apenas os seus próprios interesses, sem ligar às cosequências que isso possa ter nos que os rodeiam. Ou talvez tivesse que me tornar em alguém que utiliza os outros como ferramentas para atingir os seus fins, e que depois se descarta delas como se fossem lixo. Por muito mais que tente , não me consigo ver nesses papeis, mas cada vez mais sou forçado a concordar que apenas estas criaturas ignóbeis conseguem sobreviver neste mundo cão, que abandonou todos os princípios.
A solução que, embora não sendo de todo a mais correcta, é ainda a mais honrada de todas parece ser ceder à frustração e raiva acumuladas ao longo de todos estes anos,libertando-as numa purificadora onda de sangrenta vingança que se abateria sobre todos os que atentaram sobre mim e os meus entes queridos. Só assim saberia que esses vermes nunca mais fariam mal a ninguém. A única coisa que me impede de fazê-lo é o facto de saber que as consequências deste acto tresloucado iriam causar o maior dos danos, e que iriam ditar o último acto de vitória aos meus algozes, pois nesse momento nada mais restaria para ser salvo, ficando destruído para sempre.
Para a maioria das pessoas, este texto será só mais um desabafo de um Zé-Ninguém descontente com a vida, mas para aqueles que realmente me conhecem, verão nele muito mais que isso. E para os vermes que referi anteriormente, encarem-no como um sério aviso, pois irei enfrentar-vos a todos até ao meu último fôlego e nunca vos deixarei vencer, nem que isso me custe a vida.
Sem mais nada para acrescentar , só me resta então esperar que o próximo post seja de um tom um pouco mais leve e de leitura mais fácil. Ou não…
Este estado de permanente infortúnio tem posto em sérias dúvidas o meu tão vincado sistema de valores, que practicamente me obriga a pôr o bem-estar dos outros à frente do meu, negligenciando de practicamente tudo para que aqueles cuja felicidade devo protejer se sintam seguros e felizes. Nã o é justo que mesmo depois de tanto sacrifício, tanto sofrimento e tanta provação ainda não ter merecido, no mínimo, um momento de paz. Será que terei feito algo de tão mau no passado, para que tudo isto me esteja a acontecer agora? Não creio que seja esse o caso, pois em 28 anos de vida nunca desejei mal algum seja a quem for, nem tampouco o pratiquei. Sempre fui educado para fazer sempre o que era correcto, nem que isso significasse perder algo. Nunca roubei nem enganei ninguém ,por isso o pouco que tenho de meu foi comprado com o suado produto do meu trabalho, mas mesmo assim há quem ainda cobice e questione onde fui obter as minhas posses. Apico-me a fundo no meu trabalho, mesmo não gostando dele, sacrifico a minha já fraca vida social e familiar para que possa cumprir com o meu dever, mas mesmo assim não obtenho nada que recompense todo esse esforço, tendo ainda que ouvir comentários infelizes de quem não se esforça minimamente para cumprir com o seu próprio dever. Nem no campo sentimental me livro deste maldito ciclo, pois embora nunca me tenha envolvido com ninguém com más intenções e ter dado tudo o que podia dar de mim, acabei sempre por perder tudo e magoar-me dos modos mais brutais.
Tendo tudo isto em conta, como poderei eu ter algo mais para dar? Como poderei eu ser capaz de continuar a tentar a ajudar tudo e todos, quando o que recebo em troca é sofrimento? Sinceramente não consigo responder a estas questões. Acho que talvez devesse adoptar a postura da maioria das pessoas, que defendem apenas os seus próprios interesses, sem ligar às cosequências que isso possa ter nos que os rodeiam. Ou talvez tivesse que me tornar em alguém que utiliza os outros como ferramentas para atingir os seus fins, e que depois se descarta delas como se fossem lixo. Por muito mais que tente , não me consigo ver nesses papeis, mas cada vez mais sou forçado a concordar que apenas estas criaturas ignóbeis conseguem sobreviver neste mundo cão, que abandonou todos os princípios.
A solução que, embora não sendo de todo a mais correcta, é ainda a mais honrada de todas parece ser ceder à frustração e raiva acumuladas ao longo de todos estes anos,libertando-as numa purificadora onda de sangrenta vingança que se abateria sobre todos os que atentaram sobre mim e os meus entes queridos. Só assim saberia que esses vermes nunca mais fariam mal a ninguém. A única coisa que me impede de fazê-lo é o facto de saber que as consequências deste acto tresloucado iriam causar o maior dos danos, e que iriam ditar o último acto de vitória aos meus algozes, pois nesse momento nada mais restaria para ser salvo, ficando destruído para sempre.
Para a maioria das pessoas, este texto será só mais um desabafo de um Zé-Ninguém descontente com a vida, mas para aqueles que realmente me conhecem, verão nele muito mais que isso. E para os vermes que referi anteriormente, encarem-no como um sério aviso, pois irei enfrentar-vos a todos até ao meu último fôlego e nunca vos deixarei vencer, nem que isso me custe a vida.
Sem mais nada para acrescentar , só me resta então esperar que o próximo post seja de um tom um pouco mais leve e de leitura mais fácil. Ou não…
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