sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Autómato

Mais um dia começa. E com ele começam também o infindável e tortuoso conjunto de rotinas que sou obrigado a cumprir, como se de uma obscura penitência se tratassem. Desde o meu primeiro momento consciente, até ao momento que fecho os olhos para adormecer, todos os meus gestos e acções são guiados por algo que não consigo compreender, mas que por pura conveniência, apenas chamo hábito.
Tudo o que faço me parece mecânico: o caminho que todos dias percorro de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem por uma única vez enveredar por uma rua diferente, a constante repetição das mesmas tarefas, cronometradas ao segundo, o “bom dia” que se solta num tom monocórdico quando me deparo com mais uma centena de caras desconhecidas, mas que sou forçado a cumprimentar com a maior das cordialidades, como se de membros da família se tratassem. Esta última rotina, em particular, é a que mais me custa a suportar, pois quase me obriga a praticar algo que em toda a minha vida odiei - o cinismo. Em outras circunstâncias, a muitas dessas pessoas nem dirigiria uma palavra sequer, quanto muito esboçar um sorriso (algo que também não pratico com frequência, verdade seja dita), só que naqueles momentos tenho que pôr de parte aquele que sou e tornar-me algo que seja mais agradável a quem me dirijo, mesmo que lhe nutra um ódio visceral. Se isto não é cinismo, não sei o que seja.
Esta teia de rotina já chegou mesmo a envolver a minha própria vida pessoal. Todos os dias chego a casa e faço sempre as mesmas coisas, às mesmas horas, dia após dia, ano após ano. Parece que entrei num “loop” temporal, que me obriga a viver sempre o mesmo dia, vezes e vezes sem conta. Até seria preferível que assim fosse, pois não sentiria o alarmante ritmo do tempo a esvair-se cada vez mais depressa ao compasso do relógio. Nem mesmo nos poucos momentos de lazer que me são permitidos consigo escapar ao automatismo que me persegue: vou aos mesmos sítios, ouço as histórias que já ouvi inúmeras vezes, vejo as mesmas caras, ouço as mesmas músicas vezes e vezes sem conta. E no final de tudo, sinto sempre o mesmo pesar ao saber que o novo dia traz ainda mais rotina…
Por um único dia que fosse, gostaria de poder libertar-me desta inexpugnável e sufocante prisão de pequenos hábitos e rotinas, de poder realmente saborear a vida na sua plenitude, sem necessidade de planear cada passo a cada segundo, em suma, deixar de pura e simplesmente existir e começar a VIVER.
Embora este texto tenha um toque mais pessoal do que aqueles que costumo escrever (encarem-no como um desabafo, se preferirem),penso que ele reflecte uma grande parte das pessoas em geral, que se encontram presas às suas rotinas , muitas vezes contra a sua vontade, seja por responsabilidade ou obrigação pessoal. A todas essas pessoas desejo que encontrem aquilo que procuram, para que finalmente possam ser livres para viver.

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