domingo, 28 de dezembro de 2008

O valor da Palavra

Antes de mais nada, tenho que agradecer à minha amiga Ana por me ter proporcionado a interessante conversa de Sábado, na qual se começou a falar de música, passou pela Ecologia,religião, entre outras coisas e acabou mais ou menos na criação do próprio Universo.
Foi esta "pequena" conversa que me deu inspiração para escrever este texto.

Para o ser humano o acto de falar é tão comum e necessário como o acto de respirar. É este simples, mas tão fundamental acto que nos permite comunicar com o mundo que nos rodeia, que possibilita expressarmos as nossas ideias, convicções e sentimentos. Até aqui nada de novo. Mas tão comum se tornou que, pouco a pouco, começou a ser banalizado, desperdiçado em conversações sem conteúdo, que não passam apenas de meras constatações do óbvio, nascidas do tédio do quotidiano, que se tem tornado cada vez mais cinzento e enfadonho a cada dia que passa.
È frequente depararmo-nos no dia-a-dia com exemplos gritantes desta falta de conteúdo nas conversas , muitas vezes nem temos que procurar muito , bastando apenas olhar para aqueles que nos são mais próximos, sejam eles familiares, amigos, ou até mesmo colegas de trabalho. Quantas vezes já presenciámos a típica cena da “conversa de café”, em que se discute temas tão interessantes como a vida alheia, o estado do tempo, os incontornáveis dramas e desencantos do futebol, da exasperante saturação da carreira profissional que odiamos ,mas que fomos forçados a seguir , ou até mesmo sobre absolutamente nada? Pessoalmente gosto bastante de observar estas últimas, por serem tão engraçadas, visto que todos os que nela participam apenas se limitam a dizer qualquer coisa, por mais sem nexo que seja, apenas para a conversa não morrer, somente com o intuito de impedir a chegada do longo e incómodo silêncio que normalmente se instala quando já ninguém se consegue lembrar de mais nada para dizer.
Em suma, nós perdemo-nos cada vez mais neste marasmo de ideias, que teima em se instalar no seio das nossas conversas diárias. Mas, embora sejam cada vez mais raras, existem excepções a esta regra. Por vezes lá conseguimos vislumbrar a tão desejada luz ao fundo do túnel, acabando por finalmente participar numa conversa com um tema realmente interessante, que consegue desafiar a nossa adormecida mente a pensar e a livrar-se dos seus automatismos inúteis. Para que isto aconteça não é necessário que nenhum dos intervenientes possua doses maciças de cultura geral ou grande formação académica, antes pelo contrário, pois muitos dos filósofos e académicos deste mundo tendem a perder-se no seu próprio conhecimento, o que torna o seu discurso oco e desinteressante para os demais . O que realmente importa é o interesse dos envolvidos no respectivo tema e de cada um deles estar incondicionalmente disposto a expor e compartilhar as suas mais profundas crenças e ideais.
À medida que a conversa se vai desenrolando, a nossa mente vai meticulosamente analisar os argumentos lançados pelo(s) nosso(s) interlocutor(es), de modo a tentar descobrir uma falha, uma brecha no seu raciocínio, para que depois o consiga refutar, discutir, ou quem sabe, complementá-lo de alguma forma. Uma boa conversa pode muito bem ser comparada a um duelo de esgrima, em que através de golpes e contragolpes , os dois adversários tentam desferir a estocada final , aquela que porá fim ao duelo e ditará a vitória de um deles. Só que neste duelo em particular, não existem vencedores ou vencidos, pois ambos partilham o mesmo objectivo, apesar de terem diferentes motivos para o seguir.
Analogias à parte, nada consegue ser mais agradável do que sentir as palavras a fluir livremente, saboreá-las , para que consigamos saciar essa sede de sentido e significado ,tão própria do ser humano.
A sensação de bem-estar que permanece após uma conversa deste tipo é verdadeiramente indescritível,pois começamos a ver as coisas de outra perspectiva. Consegue absorver-nos de tal forma que nos esquecemos por momentos daquelas coisas que nos atormentam o espírito diariamente, e que nos drenam a nossa vontade . Naquele breve momento somos realmente livres, pois não só fomos capazes de dar parte de nós, como também recebemos parte de alguém, conseguindo assim enriquecer como pessoas através dessa partilha mútua de ideias e opiniões.
Concluindo, resta-me apelar a todos vós que se libertem das amarras do tédio, da rotina e do automatismo mundano. Atrevam-se a abrir as portas do pequeno cubículo que criaram nas vossas mentes, e que abram os olhos para apreciar os maravilhosos horizontes que podem ser vossos para descobrir . Partilhem aquilo que vos vai na alma, sem medo ou dúvida, mas estejam também disponíveis para ouvir quem deseja ser ouvido. Se todos conseguirmos, nem que seja só por um dia da nossa vida, atingir este grau de partilha mútua é certamente garantido que conseguiremos melhorar-nos a nós próprios e ao mundo em que vivemos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dedicatória a um tempo esquecido


Revelações


Do meu pacífico repouso fui despertado
Por algo tão violento como o troar dos trovões
Que fustigam os céus no meio da tempestade,
Algo que abalou os já frágeis pilares do meu mundo,
Aquela besta indomável, cujo nome é Verdade.
Inesperada ela veio até mim, tão suavemente,
Qual amante dissimulada que seduz, engana e mente
Destruiu tudo o que vejo, sinto e tomo como real,
Com o seu suave toque destruiu tudo o que eu achava sagrado
E que lutei com todas as forças para manter:
Honra, Lealdade, Sinceridade, Valor, Coragem,
Esses valores tão nobres, que sempre me guiaram
Na vida, essa tão longa e penosa viagem.
Por essa gentil e falsa meretriz eu lutei
Qual paladino que luta pelo que é correcto e justo,
Que com a sua já gasta armadura luta pelo Bem,
Aquela falsa utopia que intensamente vivi e em que sempre acreditei,
Mas que agora vi que não passa de meras cinzas e pó
Levadas pelo áspero vento da Dor e do Desespero,
Meus leais companheiros, que sempre estiveram a meu lado
E que me ajudaram a carregar o meu pesado fardo.
Eis-me então aqui, neste breve, mas infindável momento
Prostrado ante a visão de tão assombrosa majestade,
Completamente rendido ao seu mesmerizante lamento,
Que me trouxe de volta ao frio abraço da Realidade.

Crónica do Guerreiro Esquecido





Mais um dia termina. De novo o Sol se põe, pondo fim a mais um reinado de luz e calor, dando agora lugar á fria e distante Lua, que traz consigo a sua corte de trevas ,silenciosas e frias. A testemunhar esta majestosa cerimónia está um homem. Não é a primeira vez que o faz, mas não é por isso que deixa de esboçar um leve sorriso ao ver a escuridão que se aproxima, assim como quem revê um velho amigo. Para este homem as trevas trazem-lhe conforto, fornecem-lhe o abrigo que tanto necessita para albergar as negras memórias que traz dentro de si.
Memórias de todas as batalhas que travou nesse duro campo de batalha, o qual por trágica ironia , ou por crassa ignorância, chamamos vida. Sob intensa meditação, o Guerreiro recorda vividamente todos os campos de batalha que pisou, e dos quais emergiu vitorioso. Qualquer um rejubilaria ao fazê-lo, mas não este homem. Em vez disso, ele esboça um esgar de dor, e luta com todas as forças para conter o grito de pura raiva que lhe parece querer rasgar a alma. Não é a loucura que leva este homem a reagir desta forma, mas sim uma grande sensação de vazio, de profundo e avassalador Esquecimento.
È neste momento que o Guerreiro se volta de novo para dentro de si, como que buscando a causa deste sentimento atroz. A busca torna-se cada vez mais dolorosa a cada memória que percorre, mas ele continua apesar de tudo. Ele precisa de saber o porquê deste sofrimento. Depois de uma longa e dolorosa busca dentro de si, finalmente o Guerreiro abre os olhos e prostra-se no chão , como que se o peso do mundo tombasse sobre ele. Finalmente ele sabia…
Tinha estado em frente dele todo este tempo, mas estava tão inebriado com o chamamento da Honra, da Lealdade e do Dever, que o arrastavam incessantemente para o campo de batalha, levando-o a travar batalhas que não eram suas para travar. Foram estas batalhas a fonte da sua ruína , pois nelas, mesmo emergindo vitorioso, os espólios da batalha não eram seus para colher. Mesmo tendo lutado bravamente, não lhe estava destinada glória, pois essa caberia a outros, mas apenas a promessa de poder combater de novo, caso a Sorte assim o exigisse .
No fundo, após tudo o que batalhou, de seu só possuía as suas memórias e as feridas de antigas batalhas que não conseguiu vencer, aquelas que teimam em não sarar, parecendo querer lembrar-lhe do amargo sabor da derrota. Todas as suas vitórias tinham sido em vão, pois em nenhuma delas tinha defendido uma causa que fosse realmente sua. Neste grande jogo de xadrez, ele tinha sido apenas um peão, que teve um papel fulcral no desenrolar do jogo, mas que foi sacrificado para executar a jogada final, para que a vitória fosse possível.
È após compreender esta amarga verdade que o Guerreiro percebe o porquê da sensação de vazio que o assolava. De novo volta a erguer-se e jura solenemente que procurará a sua causa, nem que para a encontrar tenha que percorrer as ardentes planícies do Inferno, de modo a poder finalmente erradicar o Mal que o aflige.
Mas assim que se prepara para iniciar esta nova batalha , o Guerreiro volta a tombar, desta vez não por desgosto ou pesar, mas sim por já não lhe restar uma única réstia de forças para continuar a lutar. Finalmente o custo de todos os seus esforços foram cobrados, de forma cruel e brutal, mesmo á beira da sua batalha decisiva.
Exausto, O Guerreiro fecha os olhos e adormece para sempre, deixando-se envolver pela escuridão , rogando que esta lhe traga a Paz que nunca teve.

Teorema da Mediania

Todos nós , em determinada altura das nossas vidas, traçamos planos para o futuro, projectando neles as nossas ambições , sonhos e esperanças. É nestes planos tão bem elaborados que apoiamos o desejo de deixar a nossa marca no mundo, por forma a manter viva a nossa memória depois de partirmos deste mundo. Afinal, não será o sonho de qualquer pessoa figurar nos livros de História , tal como muitos outros seres humanos que fizeram algo de grandioso pela glória da Humanidade?
Com afinco começamos a pôr o plano em prática e por algum tempo conseguimos seguir com determinação tudo a que nos propomos, até que finalmente surgem as primeiras distracções e os primeiros contratempos , que nos fazem desviar do percurso desejado. Isto pode dar-se pelos mais variados motivos, sejam eles pessoais , sentimentais, académicos, monetários , mas isso não é importante. O importante é que neste preciso momento nos apercebemos que as coisas não vão ser tão fáceis como esperávamos, e que o plano precisa de ser repensado. No entanto, apesar disso a determinação em se bem sucedidos não esmorece, e seguimos em frente.
Alguns anos passam sem darmos conta. Damos por nós mais crescidos, mais maduros, mas também ostentamos as cicatrizes desse crescimento, pois não existe crescimento sem dor. É com esta recém - adquirida maturidade que, por um longo momento, fazemos uma retrospectiva do nosso plano e percebemos que tudo aquilo que pensávamos ser temporário parece cada vez mais permanente, que os problemas parecem ser cada vez mais difíceis de resolver, e que há certas memórias que tentamos esquecer teimam em vir á superfície. Só após desta breve retrospectiva somos capazes de ver que nos esquecemos do propósito do nosso plano e da razão pela qual nos esforçámos tanto para o concretizar. Eis então que surge a dúvida. Para quê o esforço, os infindáveis sacrifícios? Porque não aproveitar aquilo que já temos, por muito pouco satisfatório que seja?
São muito poucas as pessoas que conseguem pôr de parte estas questões e seguem em frente. Normalmente costumamos vê-las nas telas do cinema, a encantar estádios inteiros com os seus dotes atléticos, ou a serem reconhecidos mundialmente pela sua sabedoria . São estas pessoas extraordinárias, com os seus dotes incomuns que terão os seus nomes inscritos a fogo nas intermináveis páginas da História, pois tiveram a força e a coragem de tentarem ser algo mais, pois sacrificaram tudo e não perderam o alento, apesar de todas as adversidades, de todas as distracções e de todos os medos. Quanto ao resto de nós, apenas podemos olhar para elas com admiração, e imaginar por breves momentos como seria se estivéssemos no seu lugar, tentando saborear por breves instantes a inebriante sensação de ver os nossos sonhos realizados, em vez do amargo sabor da mediania, da mediocridade ,que impera em tudo o que fazemos e que nos esmaga a cada segundo.
No fundo, o que pretendo dizer com tudo isto é que, não obstante dos planos que cada um de nós tenha para a sua vida, se não estivermos dispostos a dar o nosso melhor em tudo o que fazemos, de modo a fazer algo extraordinário e a empregar toda a réstia de força para superar a adversidade, então não seremos mais do que um grão de areia no meio do deserto, que mesmo sendo levado pelo vento, ninguém nota que desapareceu.