
Mais um dia termina. De novo o Sol se põe, pondo fim a mais um reinado de luz e calor, dando agora lugar á fria e distante Lua, que traz consigo a sua corte de trevas ,silenciosas e frias. A testemunhar esta majestosa cerimónia está um homem. Não é a primeira vez que o faz, mas não é por isso que deixa de esboçar um leve sorriso ao ver a escuridão que se aproxima, assim como quem revê um velho amigo. Para este homem as trevas trazem-lhe conforto, fornecem-lhe o abrigo que tanto necessita para albergar as negras memórias que traz dentro de si.
Memórias de todas as batalhas que travou nesse duro campo de batalha, o qual por trágica ironia , ou por crassa ignorância, chamamos vida. Sob intensa meditação, o Guerreiro recorda vividamente todos os campos de batalha que pisou, e dos quais emergiu vitorioso. Qualquer um rejubilaria ao fazê-lo, mas não este homem. Em vez disso, ele esboça um esgar de dor, e luta com todas as forças para conter o grito de pura raiva que lhe parece querer rasgar a alma. Não é a loucura que leva este homem a reagir desta forma, mas sim uma grande sensação de vazio, de profundo e avassalador Esquecimento.
È neste momento que o Guerreiro se volta de novo para dentro de si, como que buscando a causa deste sentimento atroz. A busca torna-se cada vez mais dolorosa a cada memória que percorre, mas ele continua apesar de tudo. Ele precisa de saber o porquê deste sofrimento. Depois de uma longa e dolorosa busca dentro de si, finalmente o Guerreiro abre os olhos e prostra-se no chão , como que se o peso do mundo tombasse sobre ele. Finalmente ele sabia…
Tinha estado em frente dele todo este tempo, mas estava tão inebriado com o chamamento da Honra, da Lealdade e do Dever, que o arrastavam incessantemente para o campo de batalha, levando-o a travar batalhas que não eram suas para travar. Foram estas batalhas a fonte da sua ruína , pois nelas, mesmo emergindo vitorioso, os espólios da batalha não eram seus para colher. Mesmo tendo lutado bravamente, não lhe estava destinada glória, pois essa caberia a outros, mas apenas a promessa de poder combater de novo, caso a Sorte assim o exigisse .
No fundo, após tudo o que batalhou, de seu só possuía as suas memórias e as feridas de antigas batalhas que não conseguiu vencer, aquelas que teimam em não sarar, parecendo querer lembrar-lhe do amargo sabor da derrota. Todas as suas vitórias tinham sido em vão, pois em nenhuma delas tinha defendido uma causa que fosse realmente sua. Neste grande jogo de xadrez, ele tinha sido apenas um peão, que teve um papel fulcral no desenrolar do jogo, mas que foi sacrificado para executar a jogada final, para que a vitória fosse possível.
È após compreender esta amarga verdade que o Guerreiro percebe o porquê da sensação de vazio que o assolava. De novo volta a erguer-se e jura solenemente que procurará a sua causa, nem que para a encontrar tenha que percorrer as ardentes planícies do Inferno, de modo a poder finalmente erradicar o Mal que o aflige.
Mas assim que se prepara para iniciar esta nova batalha , o Guerreiro volta a tombar, desta vez não por desgosto ou pesar, mas sim por já não lhe restar uma única réstia de forças para continuar a lutar. Finalmente o custo de todos os seus esforços foram cobrados, de forma cruel e brutal, mesmo á beira da sua batalha decisiva.
Exausto, O Guerreiro fecha os olhos e adormece para sempre, deixando-se envolver pela escuridão , rogando que esta lhe traga a Paz que nunca teve.


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